domingo, 17 de julho de 2016

(pseudo) Amores

As suas cabeças ainda repousam sobre o travesseiro da minha imaginação. Ainda escuto o pulsar dos seus corações com a minha libido. Ainda observo seus corpos nus no espelho da minha alma. Ainda tomamos, todos, as taças vinho ao som de um jazz antigo dos anos 50 enquanto fumamos, todos, nossos cigarros.
Amores, pseudo-amores, frutos de minha criatividade infatil e de minha paixão ancestral, e nascidos na solidão pura e irremediável que escolhi para mim. Vocês vivem em mim, são partes de mim; participaram no que hoje sou. E, me amando como eu me amo, um amor intrínsico, inato e absurdamente real, tomo a liberdade de abandonar o prefixo e chamá-los por o que de fato são: meus amores.

sábado, 16 de julho de 2016

Utopias

Utópicos ou não, todo ser humano necessita de uma utopia para viver. Um motivo; um desafio que o faça prosseguir. Algo que julga impossível de atingir, mas que o motiva a tentar quebrar o impossível.
Para que possa parecer heroi.
Para que possa parecer sobre-humano.
O possível é chato. O possível é possível.
Queremos ultrapassar os limites.
Queremos descobrir.
Queremos desbravar.
Queremos - todos - ser os deuses do nosso novo mundo.
Queremos - todos - criar o nosso mundo.

Esse é o motivo da vida: a busca pelo (quiçá) inalcançável.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Segredo

quero contar-te um segredo vem cá, não tenhas medo daqueles de banho gelado no inverno vou te ensinar, serei paterno para que andes também no inferno sem jamais te titubear eu quero ver-te bailar ao ar em dia claro e sem o nevar de uma vida reprimida e só eu quero que espalhes dos móveis o pó que tires de vez da garganta o nó e olhes somente para ti e teu futuro saibas que não é assim tão duro é meio como caminhar no escuro: de tanto breu a vista acostuma é como luz baixa em meio à bruma não há felicidade que não se assuma e que, assumida, não te mostres o trilhar!

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Substantivos

adorar é dor
venerar: veneno
amar? é mar!

quarta-feira, 9 de março de 2016

A um certo Gustavo

Amigo, meu amigo... prepotência chamá-lo amigo: muitos anos que não nos vemos. O fato é que não nos conhecemos mais. Mas acredito piamente que as essências permanecem. E sempre me agradei muito de sua essência.

Os carros passam, as folhas ressecam, mas as flores renascem. Digo isso não levianamente: passei por outonos eternos (enquanto duraram).

Os outonos passam. E assim como eu - que há anos não o vejo - estou certo de sua vivacidade e beleza, certo estou também de que muita flores ao seu redor sentem - e adoram - sua fragrância reprimida; adormecida.

Tudo passa - desacreditava eu em meio ao meu (último) outono (e o) mais tenebroso.

Isto hoje para mim é certeza. E tenho certeza que para você também o será. Mas... curta seu outono. Curta da maneira mais rasteira e funesta que você puder. Porque a ressequidão das folhas hão de passar, mas ainda temos de reconhecer sua beleza.

Um grande abraço de um projeto de amigo.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Faltas

falta é ler o nome com o coração
ver as fotos com a alma
e sentir no tato a ausência

falta é duvidar da própria existência
sentir o gosto das risadas passadas
e no frio do estômago relembrar as conversas

falta é se sentir vazio
como se a luz de sete mil sóis
iluminassem somente o espaço não preenchido

falta é se achar caído
é ouvir a música do seu caminhar
como se jamais se tivesse ido

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dúvidas

Por que me chamas
Se o vento em teus cabelos
Não provém do meu peito em chamas?

Por que me acenas
Se as pulseiras em teu pulso
Não roçam em minhas pernas?

Por que me abraças
Se teus braços em forma de arco
Não me acolhem em teu coração?

Por que me ris
Se teus lindos dentes brancos
Não é minha língua que vai desbravar?

Por que me sonhas
Se teus sonhos mais obscenos
Não sou eu a protagonizar?

Por que me tocas
Se a libido que vem de teu ventre
Não é minha pele a receptar?

Por que me ouves
Se os arrepios de sussurros gemidos
Não é minha voz que vai te causar?

Por que não me aceitas
Se à noite quando te deitas
Embalo teus sonhos com meu sonhar?

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Metamorfose

O asfalto ralando o coração pelo caminho
Em meio a pedaços e vinho
Exala-se o aroma da felicidade que se finda

Finda está a festa
Atesta o meu entorno:
Contorno de alma vil,
Febril eloquência insipiente

Findo está o verão
Serão dias nublados
Destilados por sobre a mesa:
Acesa há de manter-se a chama

Que trôpega e indolente
Assente que sua loucura
Perdura como um casulo
Chulo sem desabrochar

Revolve em meio ao breu
Ateu que não acredita
"Bendita seja a loucura!"
Procura um grito errante saída

E em venerável instante
Vagante grupo da lenda
Atenta ao casulo quadrado
O alado grupo das fênix

A loucura se faz livre
Exibe suas asas belas
Telas de acidez e fumaça
Escassas em qualquer trela

Então a loucura brilha
Empilha seus bons vinis
Gris não é mais o dia
A loucura agora é feliz

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Chama

tô indo ali
qualquer coisa me ama

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O fio da vida

Acaba sendo engraçado a forma com que as pessoas complicam suas vidas. Encontram-se emboladas num emaranhado aparentemente muito intrincado, mas que, com dois ou três puxões de fio são facilmente desfeitos. O que acontece é que justamente por estarem dentro deste ninho, não conseguem perceber a situação como um todo, e tampouco se esforçam para tal. Três puxões de fio e a vida retoma a linearidade gostosa e despreocupada da infância, que jamais deveria ter sido perdida.

Acaba sendo desesperadamente tentador querermos meter as mãos nos biofios alheios e desemaranharmo-lhes os problemas, tentação esta proveniente de um egoísmo mais que infantil, um egoísmo quase instintivo. Queremos nos tornar herois de nosso mundo, sem perceber que herois não têm lugar nem serventia em um mundo são. Queremos nos mostrar os alfas, conquanto alfas não possam existir numa real comunidade. Assim, em vez de criarmos um ambiente ao nosso redor em que - justamente por uma respeitosa omissão - ajudamos as pessoas a se tornarem seus próprios herois (destituindo, assim, qualquer um de tamanha importância), os alimentamos os demônios e soltamos os leões, para que os exorcisemos e para que coloquemos mais uma vez as feras em suas jaulas.

Dessa forma acreditamos em nossa própria importância ante nossos semelhantes. Mas que não nos enganemos: estamos sempre reinventando a roda ao resolver problemas que ajudamos a criar. Podemos enganar aos menos atentos; àqueles que não enxergam de fora do emaranhado. Mas a insatisfação sempre morará em nossos corações enquanto exista sempre alguém que nunca poderemos enganar completamente: a nós mesmos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Invulnerável

Saudades de que me virem a cabeça
Que me façam mudar de ideia
Que tirem a poeira e que pereça
O antigo que levo na boleia

Saudades de que me abra a ferida
Que em vez de rosa, seja espinho
Que me rasgue o peito e deixe caída
A alma que levo em meu caminho

Saudades de que me incomodem meu sono
E que me aborreçam o ego
Que me descubram como funciono
E que arranquem do quilhão o prego

Saudades de que me batam pra valer
De alguém que me desate o linho
Porque aqueles que me tentam bater
Só conseguem me fazer carinho!

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Semente de amor

Tenho um amor encubado, um amor-semente há mais de década esperando para brotar. Mas... Lá sei eu cuidar de amor?! Amor dá bicho, pega fungo e pode fácil, fácil morrer de doença. Morre de frio, de excesso ou de falta d'água. Quando novo é uma gracinha! Mas é mais difícil de cuidar. Quando vai envelhecendo fica mais independente, mas nisso ora ou outra vai-se embora também. Eu já perdi um tanto e já deixei tantos outros morrerem. Acho que vou deixar esse em semente, mesmo. Dar fruto não vai, mas aí faço colar e penduro do lado do coração.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Rastejando

O veneno da cobra
Do escritor, a obra
O mote:
Do poeta, o bote!

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Fantasma

A um fantasma devotei minh'alma,
Meus anos e minhas lágrimas.
A um fantasma devotei meus risos,
Meus sóis e madrugadas.

Um fantasma roubou-me a paz.
Roubou-me os olhos e o meu sono.
Um fantasma que nada traz
Além de choro e abandono.

Se aparece, em polstergeist,
Acendo logo os castiçais,
Só que antes do jantar ele some.

Se aparece, assombração!
Bate-me as portas do coração
E deixando-as cerradas ele some.

A um fantasma faço rituais,
Acendo velas, procuro em vitrais
O espectro de sua presença.

Este fantasma, que bem me faz?
Além da beleza de sua forma altiva
Que ao surgir, gozam meus olhos em alegria?

A um fantasma devotei minha vida
Aqui escrevendo nesta noite fria
Da possessão há anos sofrida
Por esta aparição, por este guia.

A um fantasma devotei meu mundo
Tendo seu rei colocado em xeque
Segue parado a cada segundo
Girando tal qual as mesas de Allan Kardec.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Destino marcado

eu aqui pensando nas voltas da vida
e como ela me troxe de volta
às trilhas que você fez

não foi o acaso, nem deus
foi você que me trouxe de volta
às trilhas que você fez

de corpo marcado, de dorso suado
andando nas trilhas que você fez
é que agora retorno, de couro, de aço
às trilhas que você fez

de pele queimada, de alma marcada
andando nas trilhas que você fez
é que agora me deixo, ao vento e ao prado
e me lembro das trilhas nas quais
foi você quem me fez

sábado, 29 de agosto de 2015

Ode aos churrascos de sábado

Brindemos!
Ao sol que nasce
Ao amor que verte
Ao dia eterno
Que não se escurece
E ilumina as pétalas do nosso jardim!

Bebamos!
Que a vida é longa
Que a noite é curta
Que a tristeza é ácida
E a alegria grande
Para caberem em coração sóbrio!

Cantemos!
Que há grandes males
Que há grande espanto
Mas a vida dá o tom
E a perfeita harmonia
Só nos resta compor e cantar a melodia!

Dancemos!
Que o corpo é jovem
Que a dama é moça
E o bolero da vida
Que pra lá vai, mas pra cá fica
Enche a alma de libido e paixão!

Amemos!
Que o amor é mato
Que o amor é praga
É fogo que não se apaga
É a vítima, o réu e o fato!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Alien

Você não pode ser humano
O poder que exerce sobre mim
Um misto de medo e vergonha

O que nos causa o medo
É o que atrai aos nossos nossos lados mais obscuros
E esta atração envergonha

Tenho medo
Tenho medo da sua distância
Tenho medo de não ter por perto tamanha existência

Que me toca e me faz venerar
Que me atinge
Que me tinge em rubor
Que me tira do prumo
E me ausenta

Tenho medo
Tenho medo da sua beleza
Tenho medo do palpitar em meu peito quando se aproxima
E das pernas bambas quando passa

Sinto como se fosse o melhor dos vícios
E o mais forte dos venenos
Que dilaceram
Que corroem
Que matam

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Ex-gay

Borboleteava aqui e acolá. Desde pequeno calçava os sapatos da mãe e imitava com grande categoria a amada figura Dona Florinda. Era pena na cabeça e rebolados "indígenas". Eram as saltitanças pela casa e eram os desenhos de princesas. Lindos, "mas isso lá é coisa de menino fazer?" diziam os familiares.

Sempre foi um amor de criança. Na escola era só boas notas e lia livros muito mais avançados que seus coleguinhas. Gostava de arte em geral, mas sempre tendia ao teatro. "Adoro fazer drama!" era seu hino de adolescente. Mas na verdade não fazia nada: era generoso, carinhoso e muito condescendente. As brincadeirinhas homofóbicas de colégio eram tão frequentes e vinham de tão antes de entender-se por gente que nem ligava: "Ah! É isso mesmo! Não me junto com essa gentalha!", relembrava seu ídolo. Porém se juntava. Fazia amigos sempre e em qualquer lugar. Outros meninos chegavam de outros colégios, estranhavam seu comportamento e entravam nas brincadeiras com outras intenções. Mas rapidamente notavam o  enorme carinho e a admiração oculta que seus colegas tinham por ele. Era espontâneo, dono de si e não duvidava nunca de sua felicidade. E era justamente essa a fonte de sua força, de seu coração e de seu carisma.

Cresceu. Como já dizia há tempos, "tinha alma de artista!" e foi para o Rio estudar Artes Cênicas. A essa época a família toda já aceitara a sexualidade do rapaz, que, mesmo não sendo "o que o pai esperava", era uma pessoa fantástica e que sempre promovia o bem. "Meu filho pode ser o que for, mas é muito mais homem do que a maioria dos que falam dele por aí!", bradava o pai com certo orgulho até.

Já se apresentava em um pequeno grupo de teatro e suas performances eram sempre aplaudidas. Sua carreira estava começando com ares de próspero futuro! Seus professores já viam nele um grande potencial e as propostas de trabalho pipocavam cada vez mais ao aproximar-se de sua formatura.

Tudo estava belo para ele, não tinha do que reclamar - se bem que não era do seu feitio reclamar da vida. Até que um dia voltando de um ensaio à noite encontrou um grupo de rapazes: embriagados, enraivecidos e invejosos de qualquer felicidade alheia. "Ô, bichinha!", disse um. "Lá vai o viado!", outro. "Tá indo dar a bunda, é?", um terceiro. Nosso amigo replicou (nunca foi de seu íntimo ter medo): "Eu não, mas pelo visto vocês é que tão querendo!", disse com um certo glamour que ele só conseguia quando queria irritar. E infelizmente conseguiu. Foi perseguido pelo grupo. Foi espancado num beco. Foi estuprado por cinco. Foi cortado por garrafas quebradas. Foi sangrado até a morte.

O grupo sumiu da mesma forma anônima com a que apareceu. Aparentemente os iguais esvaem-se em meio à multidão de outros iguais. Ninguém sabe deles. Ninguém viu nada.

Lembrei-me deste caso hoje mesmo quando ouvi alguém dizer que não existe ex-gay. Rapidamente pensei comigo: "existe sim. É que diz-se que os anjos não têm sexualidade..."

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Aos covardes

Não ousem vocês, atrofiados do pensamento, se compararem a nós, os libertários de visão! Vocês não têm talento para a vida. Vocês são um sopro indolente e asmático, com o qual alguma divindade medíocre depositou os resquícios ínfimos de sua vitalidade.

Alguns de vocês chegam até a ser grandes perante a sociedade, mas em sua totalidade são ridiculamente minúsculos dentro de si. Ostentam um falso título de sábios do mundo, mas têm medo de descobrir os motivos de suas palpitações insones em meio às madrugadas.

Vocês pregam o excesso de obediência civil. Vocês ignoram e aplaudem quando defecam em suas cabeças embasados a uma legislação corrupta, e são indiferentes às lutas reais para uma mudança efetiva da sociedade. Vocês têm preguiça do coletivo e só têm olhos para seus próprios umbigos. 

Vocês são demasiadamente urbanos. Vocês preferem o concreto e o metal à natureza. É que suas visões são constantemente fechadas pelos antolhos que vocês insistem em carregar, impedindo-os de contemplar as maravilhas ao seu redor.

Vocês são pobres de cultura. Vocês preferem o som do trator a uma bela melodia; uma briga de rua a uma peça de teatro; uma nota de cem a uma magnífica pintura (a não ser que esta retrate suas imagens - vocês são completamente apaixonados por suas próprias feições).

Vocês são mesquinhos. Vocês podem até doar seus dízimos para suas igrejas, mas jamais estenderam a mão para os famintos nas ruas nem amansaram seus ouvidos para escutar sinceramente alguma pobre alma somente necessitada de um pouco de atenção.

Vocês não têm empatia. Vocês procuram explicações e merecimento para todo e qualquer sofrimento alheio e procuram transformar a felicidade de outrem em também sofrimento.

Vocês não assumem sua sexualidade. Vocês se lambuzam em sessenta-e-noves libertinos, mas é o papai-e-mamãe que consideram benemérito de casamento.

Vocês são dogmáticos. Os dogmas não necessitam de raciocínio e economizam aos seus modestos cérebros a atitude de pensar.

Vocês não são o todo, quiçá a metade. Vocês estão longe de encontrar a plenitude em si próprios e necessitam dos outros para descarregar seus traumas desconhecidos e suas desilusões fúteis.

Vocês são invejosos.
Vocês são incompletos.
Vocês são dignos de pena.

Vocês são infelizes.

domingo, 7 de junho de 2015

Autoditadura

Se há luz ou treva
Quem dita sou eu
Se há paz ou guerra
Quem dita sou eu

Se há loucura ou sanidade
Quem dita sou eu
E o temor da meia idade
Quem dita sou eu

Quem dita sou eu
Os trilhos de minha felicidade
E se os vagões seguem em breu
É de minha mente a claridade

Quem dita sou eu
Os caminhos de minha consciência
O ornato do camafeu
Sou eu que o dou existência

Quem dita sou eu
Em toda a minha clarividência
Que vinda do Amor ou da Ciência
Jamais há de me permitir ao que não é meu