A um fantasma devotei minh'alma,
Meus anos e minhas lágrimas.
A um fantasma devotei meus risos,
Meus sóis e madrugadas.
Um fantasma roubou-me a paz.
Roubou-me os olhos e o meu sono.
Um fantasma que nada traz
Além de choro e abandono.
Se aparece, em polstergeist,
Acendo logo os castiçais,
Só que antes do jantar ele some.
Se aparece, assombração!
Bate-me as portas do coração
E deixando-as cerradas ele some.
A um fantasma faço rituais,
Acendo velas, procuro em vitrais
O espectro de sua presença.
Este fantasma, que bem me faz?
Além da beleza de sua forma altiva
Que ao surgir, gozam meus olhos em alegria?
A um fantasma devotei minha vida
Aqui escrevendo nesta noite fria
Da possessão há anos sofrida
Por esta aparição, por este guia.
A um fantasma devotei meu mundo
Tendo seu rei colocado em xeque
Segue parado a cada segundo
Girando tal qual as mesas de Allan Kardec.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
Destino marcado
eu aqui pensando nas voltas da vida
e como ela me troxe de volta
às trilhas que você fez
não foi o acaso, nem deus
foi você que me trouxe de volta
às trilhas que você fez
de corpo marcado, de dorso suado
andando nas trilhas que você fez
é que agora retorno, de couro, de aço
às trilhas que você fez
de pele queimada, de alma marcada
andando nas trilhas que você fez
é que agora me deixo, ao vento e ao prado
e me lembro das trilhas nas quais
foi você quem me fez
e como ela me troxe de volta
às trilhas que você fez
não foi o acaso, nem deus
foi você que me trouxe de volta
às trilhas que você fez
de corpo marcado, de dorso suado
andando nas trilhas que você fez
é que agora retorno, de couro, de aço
às trilhas que você fez
de pele queimada, de alma marcada
andando nas trilhas que você fez
é que agora me deixo, ao vento e ao prado
e me lembro das trilhas nas quais
foi você quem me fez
sábado, 29 de agosto de 2015
Ode aos churrascos de sábado
Brindemos!
Ao sol que nasce
Ao amor que verte
Ao dia eterno
Que não se escurece
E ilumina as pétalas do nosso jardim!
Bebamos!
Que a vida é longa
Que a noite é curta
Que a tristeza é ácida
E a alegria grande
Para caberem em coração sóbrio!
Cantemos!
Que há grandes males
Que há grande espanto
Mas a vida dá o tom
E a perfeita harmonia
Só nos resta compor e cantar a melodia!
Dancemos!
Que o corpo é jovem
Que a dama é moça
E o bolero da vida
Que pra lá vai, mas pra cá fica
Enche a alma de libido e paixão!
Amemos!
Que o amor é mato
Que o amor é praga
É fogo que não se apaga
É a vítima, o réu e o fato!
Ao sol que nasce
Ao amor que verte
Ao dia eterno
Que não se escurece
E ilumina as pétalas do nosso jardim!
Bebamos!
Que a vida é longa
Que a noite é curta
Que a tristeza é ácida
E a alegria grande
Para caberem em coração sóbrio!
Cantemos!
Que há grandes males
Que há grande espanto
Mas a vida dá o tom
E a perfeita harmonia
Só nos resta compor e cantar a melodia!
Dancemos!
Que o corpo é jovem
Que a dama é moça
E o bolero da vida
Que pra lá vai, mas pra cá fica
Enche a alma de libido e paixão!
Amemos!
Que o amor é mato
Que o amor é praga
É fogo que não se apaga
É a vítima, o réu e o fato!
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Alien
Você não pode ser humano
O poder que exerce sobre mim
Um misto de medo e vergonha
O que nos causa o medo
É o que atrai aos nossos nossos lados mais obscuros
E esta atração envergonha
Tenho medo
Tenho medo da sua distância
Tenho medo de não ter por perto tamanha existência
Que me toca e me faz venerar
Que me atinge
Que me tinge em rubor
Que me tira do prumo
E me ausenta
Tenho medo
Tenho medo da sua beleza
Tenho medo do palpitar em meu peito quando se aproxima
E das pernas bambas quando passa
Sinto como se fosse o melhor dos vícios
E o mais forte dos venenos
Que dilaceram
Que corroem
Que matam
O poder que exerce sobre mim
Um misto de medo e vergonha
O que nos causa o medo
É o que atrai aos nossos nossos lados mais obscuros
E esta atração envergonha
Tenho medo
Tenho medo da sua distância
Tenho medo de não ter por perto tamanha existência
Que me toca e me faz venerar
Que me atinge
Que me tinge em rubor
Que me tira do prumo
E me ausenta
Tenho medo
Tenho medo da sua beleza
Tenho medo do palpitar em meu peito quando se aproxima
E das pernas bambas quando passa
Sinto como se fosse o melhor dos vícios
E o mais forte dos venenos
Que dilaceram
Que corroem
Que matam
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Ex-gay
Borboleteava aqui e acolá. Desde pequeno calçava os sapatos da mãe e imitava com grande categoria a amada figura Dona Florinda. Era pena na cabeça e rebolados "indígenas". Eram as saltitanças pela casa e eram os desenhos de princesas. Lindos, "mas isso lá é coisa de menino fazer?" diziam os familiares.
Sempre foi um amor de criança. Na escola era só boas notas e lia livros muito mais avançados que seus coleguinhas. Gostava de arte em geral, mas sempre tendia ao teatro. "Adoro fazer drama!" era seu hino de adolescente. Mas na verdade não fazia nada: era generoso, carinhoso e muito condescendente. As brincadeirinhas homofóbicas de colégio eram tão frequentes e vinham de tão antes de entender-se por gente que nem ligava: "Ah! É isso mesmo! Não me junto com essa gentalha!", relembrava seu ídolo. Porém se juntava. Fazia amigos sempre e em qualquer lugar. Outros meninos chegavam de outros colégios, estranhavam seu comportamento e entravam nas brincadeiras com outras intenções. Mas rapidamente notavam o enorme carinho e a admiração oculta que seus colegas tinham por ele. Era espontâneo, dono de si e não duvidava nunca de sua felicidade. E era justamente essa a fonte de sua força, de seu coração e de seu carisma.
Cresceu. Como já dizia há tempos, "tinha alma de artista!" e foi para o Rio estudar Artes Cênicas. A essa época a família toda já aceitara a sexualidade do rapaz, que, mesmo não sendo "o que o pai esperava", era uma pessoa fantástica e que sempre promovia o bem. "Meu filho pode ser o que for, mas é muito mais homem do que a maioria dos que falam dele por aí!", bradava o pai com certo orgulho até.
Já se apresentava em um pequeno grupo de teatro e suas performances eram sempre aplaudidas. Sua carreira estava começando com ares de próspero futuro! Seus professores já viam nele um grande potencial e as propostas de trabalho pipocavam cada vez mais ao aproximar-se de sua formatura.
Tudo estava belo para ele, não tinha do que reclamar - se bem que não era do seu feitio reclamar da vida. Até que um dia voltando de um ensaio à noite encontrou um grupo de rapazes: embriagados, enraivecidos e invejosos de qualquer felicidade alheia. "Ô, bichinha!", disse um. "Lá vai o viado!", outro. "Tá indo dar a bunda, é?", um terceiro. Nosso amigo replicou (nunca foi de seu íntimo ter medo): "Eu não, mas pelo visto vocês é que tão querendo!", disse com um certo glamour que ele só conseguia quando queria irritar. E infelizmente conseguiu. Foi perseguido pelo grupo. Foi espancado num beco. Foi estuprado por cinco. Foi cortado por garrafas quebradas. Foi sangrado até a morte.
O grupo sumiu da mesma forma anônima com a que apareceu. Aparentemente os iguais esvaem-se em meio à multidão de outros iguais. Ninguém sabe deles. Ninguém viu nada.
Lembrei-me deste caso hoje mesmo quando ouvi alguém dizer que não existe ex-gay. Rapidamente pensei comigo: "existe sim. É que diz-se que os anjos não têm sexualidade..."
sexta-feira, 12 de junho de 2015
Aos covardes
Não ousem vocês, atrofiados do pensamento, se compararem a nós, os libertários de visão! Vocês não têm talento para a vida. Vocês são um sopro indolente e asmático, com o qual alguma divindade medíocre depositou os resquícios ínfimos de sua vitalidade.
Alguns de vocês chegam até a ser grandes perante a sociedade, mas em sua totalidade são ridiculamente minúsculos dentro de si. Ostentam um falso título de sábios do mundo, mas têm medo de descobrir os motivos de suas palpitações insones em meio às madrugadas.
Vocês pregam o excesso de obediência civil. Vocês ignoram e aplaudem quando defecam em suas cabeças embasados a uma legislação corrupta, e são indiferentes às lutas reais para uma mudança efetiva da sociedade. Vocês têm preguiça do coletivo e só têm olhos para seus próprios umbigos.
Vocês são demasiadamente urbanos. Vocês preferem o concreto e o metal à natureza. É que suas visões são constantemente fechadas pelos antolhos que vocês insistem em carregar, impedindo-os de contemplar as maravilhas ao seu redor.
Vocês são pobres de cultura. Vocês preferem o som do trator a uma bela melodia; uma briga de rua a uma peça de teatro; uma nota de cem a uma magnífica pintura (a não ser que esta retrate suas imagens - vocês são completamente apaixonados por suas próprias feições).
Vocês são mesquinhos. Vocês podem até doar seus dízimos para suas igrejas, mas jamais estenderam a mão para os famintos nas ruas nem amansaram seus ouvidos para escutar sinceramente alguma pobre alma somente necessitada de um pouco de atenção.
Vocês não têm empatia. Vocês procuram explicações e merecimento para todo e qualquer sofrimento alheio e procuram transformar a felicidade de outrem em também sofrimento.
Vocês não assumem sua sexualidade. Vocês se lambuzam em sessenta-e-noves libertinos, mas é o papai-e-mamãe que consideram benemérito de casamento.
Vocês são dogmáticos. Os dogmas não necessitam de raciocínio e economizam aos seus modestos cérebros a atitude de pensar.
Vocês não são o todo, quiçá a metade. Vocês estão longe de encontrar a plenitude em si próprios e necessitam dos outros para descarregar seus traumas desconhecidos e suas desilusões fúteis.
Vocês são invejosos.
Vocês são incompletos.
Vocês são dignos de pena.
Vocês são infelizes.
domingo, 7 de junho de 2015
Autoditadura
Se há luz ou treva
Quem dita sou eu
Se há paz ou guerra
Quem dita sou eu
Se há loucura ou sanidade
Quem dita sou eu
E o temor da meia idade
Quem dita sou eu
Quem dita sou eu
Os trilhos de minha felicidade
E se os vagões seguem em breu
É de minha mente a claridade
Quem dita sou eu
Os caminhos de minha consciência
O ornato do camafeu
Sou eu que o dou existência
Quem dita sou eu
Em toda a minha clarividência
Que vinda do Amor ou da Ciência
Jamais há de me permitir ao que não é meu
Quem dita sou eu
Se há paz ou guerra
Quem dita sou eu
Se há loucura ou sanidade
Quem dita sou eu
E o temor da meia idade
Quem dita sou eu
Quem dita sou eu
Os trilhos de minha felicidade
E se os vagões seguem em breu
É de minha mente a claridade
Quem dita sou eu
Os caminhos de minha consciência
O ornato do camafeu
Sou eu que o dou existência
Quem dita sou eu
Em toda a minha clarividência
Que vinda do Amor ou da Ciência
Jamais há de me permitir ao que não é meu
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Porta aberta
Bom, agora é hora, eu acho
De abrir meu portão.
Abrir o meu lar para visitação
Deixar tirar foto, cantar e dançar no salão.
Eu baixei minhas portas no dia
Que ouvi sobre mim umas troças
De diabos que espreitavam já pelo saguão.
Com cara fechada e machado na mão
Corri como um louco pela escuridão
A dar machadadas a esmo, em vão.
Foi quando notei que assim não funciona
Larguei o machado, peguei uma lona
E pus-me a juntar umas tralhas em mim
Limpei cada canto, cada encanto quebrado
À noite desnudo, à luz fantasiado
Pra não espantar visitantes afins.
E então com a faxina se foram os diabos
Sem cheiro de mofo e de rabos queimados
Pela luz que adentrou a janela, enfim.
E então que agora esta casa eu reabro
Para visita ou morada de fato
E como um vaso assim preparado
Aceito semente, muda ou enxerto
E hei de nutrir com esmero e acerto
Tomando de minha limpeza a fonte
Para a orquídea que entrar e vingar no xaxim.
De abrir meu portão.
Abrir o meu lar para visitação
Deixar tirar foto, cantar e dançar no salão.
Eu baixei minhas portas no dia
Que ouvi sobre mim umas troças
De diabos que espreitavam já pelo saguão.
Com cara fechada e machado na mão
Corri como um louco pela escuridão
A dar machadadas a esmo, em vão.
Foi quando notei que assim não funciona
Larguei o machado, peguei uma lona
E pus-me a juntar umas tralhas em mim
Limpei cada canto, cada encanto quebrado
À noite desnudo, à luz fantasiado
Pra não espantar visitantes afins.
E então com a faxina se foram os diabos
Sem cheiro de mofo e de rabos queimados
Pela luz que adentrou a janela, enfim.
E então que agora esta casa eu reabro
Para visita ou morada de fato
E como um vaso assim preparado
Aceito semente, muda ou enxerto
E hei de nutrir com esmero e acerto
Tomando de minha limpeza a fonte
Para a orquídea que entrar e vingar no xaxim.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Mitologando
Criei asas e alcei voo sobre o tempo.
Com minhas garras desconstruí probabilidades
E sob baforadas do fogo
De minha imaginação e libido
Forjei um futuro maravilhosamente fantasioso
Completando-nos no antagonismo
Do alvo e do breu
Onde suas garras se prendiam em minhas escamas
Suas presas se afundavam em minha jugular
Onde o rajado de seu pelo fustigava em meus olhos negros
Segregados por terra e por oceanos
Unidos pela lenda e pelo destino
O tigre e o dragão
Com minhas garras desconstruí probabilidades
E sob baforadas do fogo
De minha imaginação e libido
Forjei um futuro maravilhosamente fantasioso
Completando-nos no antagonismo
Do alvo e do breu
Onde suas garras se prendiam em minhas escamas
Suas presas se afundavam em minha jugular
Onde o rajado de seu pelo fustigava em meus olhos negros
Segregados por terra e por oceanos
Unidos pela lenda e pelo destino
O tigre e o dragão
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Jardim antropológico
Sigo minha jornada agora em meu jardim
Rego minhas flores toda manhã
Jardim de esperança em um futuro promissor
De flores e folhas coloridas e viçosas
Que belas flores eu tenho!
E ainda estão a desabrochar
Converso com elas e elas em troca
Perfumam minha vida
Com aroma da força da juventude
Dou-lhes água e mostram-me folhas fortes
Entumecidas, do mais saudável verde!
Sigo assim: envelhecendo e morrendo
E aos poucos, ao contrário do natural,
Aos poucos me tornando seiva
Para essas existências maravilhosas!
Rego minhas flores toda manhã
Jardim de esperança em um futuro promissor
De flores e folhas coloridas e viçosas
Que belas flores eu tenho!
E ainda estão a desabrochar
Converso com elas e elas em troca
Perfumam minha vida
Com aroma da força da juventude
Dou-lhes água e mostram-me folhas fortes
Entumecidas, do mais saudável verde!
Sigo assim: envelhecendo e morrendo
E aos poucos, ao contrário do natural,
Aos poucos me tornando seiva
Para essas existências maravilhosas!
Verbo to be
Não gosto do ser
Gosto do estar
Eu nunca sou,
Estou
Ninguém nunca é,
Está
O estar escancara a efemeridade das coisas
O ser é estático
Imutável
Irreal.
Gosto do estar
Eu nunca sou,
Estou
Ninguém nunca é,
Está
O estar escancara a efemeridade das coisas
O ser é estático
Imutável
Irreal.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Fogo
Eram duas chamas separadas
Por campânulas de um vítreo destino
Queimavam sozinhas,
envoltas de escuridão.
Mas chegou-se o dia em que
a necessidade do calor fez-se maior
O medo do escuro e seus assombrações
Fez-se maior.
Quebraram-se os vidros,
enrolaram-se os pavios,
regadas de mesmo fluido
e alimentadas de mesmo oxigênio.
Moldavam como sua casa
a mesma escultura de cera.
Brilharam com nunca.
Calor que jamais se sentira.
Arderam entre si
Como jamais nenhuma delas ardera.
E até que se haja pavio, fluido e oxigênio,
Assim hão sempre de ser:
Eternas enquanto durem.
Por campânulas de um vítreo destino
Queimavam sozinhas,
envoltas de escuridão.
Mas chegou-se o dia em que
a necessidade do calor fez-se maior
O medo do escuro e seus assombrações
Fez-se maior.
Quebraram-se os vidros,
enrolaram-se os pavios,
regadas de mesmo fluido
e alimentadas de mesmo oxigênio.
Moldavam como sua casa
a mesma escultura de cera.
Brilharam com nunca.
Calor que jamais se sentira.
Arderam entre si
Como jamais nenhuma delas ardera.
E até que se haja pavio, fluido e oxigênio,
Assim hão sempre de ser:
Eternas enquanto durem.
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Aquele abraço
Era ali mesmo o centro do universo
Como se o espaço, de modo reverso
Surgisse do encontro dos corações
Foi um instante deveras fecundo
Foi um milênio em poucos segundos
Onde da História se perpassaram eras.
Era epopeia em data marcada
Donde o heroi pôs o pé na estrada
Para encontrar um amor similar
Foi a Eternidade em forma de abraço
Como se o tempo, se curvando em laço
Desse voltas e voltas em torno de nós
Como se o espaço, de modo reverso
Surgisse do encontro dos corações
Foi um instante deveras fecundo
Foi um milênio em poucos segundos
Onde da História se perpassaram eras.
Era epopeia em data marcada
Donde o heroi pôs o pé na estrada
Para encontrar um amor similar
Foi a Eternidade em forma de abraço
Como se o tempo, se curvando em laço
Desse voltas e voltas em torno de nós
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Devaneio
Chega de verso rimado
Se o compasso do peito
Métrica nenhuma segue!
Preferível o inferno de minhas sete vidas
À pureza desse amor
Que minhas profanas e imundas mãos
Se recusam a macular
Explodam-se as redondilhas!
Hei de romper com essa métrica
Onde a confusão do meu coração
Jamais se encaixará.
Danem-se as trovas
Delírios hipócritas
Que condenados do coração
Insistem em cantar!
Antes a ânsia do desejo
Da luxúria descabida, o ensejo
De noites nefastas em casas estranhas
À cegueira desse brilho absurdo
Que, controverso, vem de seus olhos escuros
Ao olhar sorrindo para os meus.
E então que nesta cegueira
Tu me concedes a eira e a beira
E me tirando deste devaneio
Sendo teu braço forte o esteio
Novamente me volto a rimar
Se o compasso do peito
Métrica nenhuma segue!
Preferível o inferno de minhas sete vidas
À pureza desse amor
Que minhas profanas e imundas mãos
Se recusam a macular
Explodam-se as redondilhas!
Hei de romper com essa métrica
Onde a confusão do meu coração
Jamais se encaixará.
Danem-se as trovas
Delírios hipócritas
Que condenados do coração
Insistem em cantar!
Antes a ânsia do desejo
Da luxúria descabida, o ensejo
De noites nefastas em casas estranhas
À cegueira desse brilho absurdo
Que, controverso, vem de seus olhos escuros
Ao olhar sorrindo para os meus.
E então que nesta cegueira
Tu me concedes a eira e a beira
E me tirando deste devaneio
Sendo teu braço forte o esteio
Novamente me volto a rimar
terça-feira, 8 de julho de 2014
Repentino
Por que me surgiste em repente?
Por que não me deste um aviso?
Não toco em teu improviso
Que em susto assusta-me a mente
Será esse jogo um abismo?
No qual eu me jogo de frente
E sem me conter eu somente
Me lanço em teu cataclismo
Desastre que me desordena
Senzala que abriga-me o riso
E eu mesmo assim ainda piso
Na chance que surge-me em pena
Aparece-me em data marcada
Aparece-me em dois ou três ciclos
Sem jogo, sem medo ou amigos
Que a nós só um beijo e mais nada
Por que não me deste um aviso?
Não toco em teu improviso
Que em susto assusta-me a mente
Será esse jogo um abismo?
No qual eu me jogo de frente
E sem me conter eu somente
Me lanço em teu cataclismo
Desastre que me desordena
Senzala que abriga-me o riso
E eu mesmo assim ainda piso
Na chance que surge-me em pena
Aparece-me em data marcada
Aparece-me em dois ou três ciclos
Sem jogo, sem medo ou amigos
Que a nós só um beijo e mais nada
domingo, 8 de junho de 2014
Assalto
Minha casa foi novamente invadida. Roubou-me os discos dançantes, os ingressos para festas, o dinheiro para a cervejinha no bar e a sunga de natação. Deixou-me Ângela Rô Rô, caderninho e caneta, a garrafa de whisky e um maço de cigarros, um coração apertado e a falta de fôlego.
Um covarde assalto! Um assalto a olhos armados: castanhos escuros. Arma comum, mas usada com destreza incisiva! Absolutamente letal, não pude nem arriscar reação. As pernas congelaram e a vida passou-me toda diante dos olhos. Dos meus e dos teus. Dos nossos. Agora o que era meu é teu. Essa é a triste sina do alvo do crime.
Um crime perfeito, por sinal. Completamente sem provas: os olhos não têm digitais, e nem tive tempo de anotar a placa das íris castanhas. Os lábios fartos e carmim são circunstanciais, imagino, bem como a cor de jambo. Coisa de profissional, já disse. Desferiu-me um cumprimento meigo, porém altivo, um leve toque de mãos aos ombros e o golpe final foi um sorriso com covinhas.
Depois de traiçoeiramente me ludibriar com uma conversa adorabilíssima foi embora, mas ainda me ameaçando com os cabelos pretos e o corpo escultural muito bem disfarçado no jeito largado, nas roupas comuns e nos chinelinhos de dedo. Coisa de ninja, levou-me praticamente tudo e só agora me dei conta. Aliás, me dei conta quando me peguei esperando ansiosamente pelo dia que virá levar o resto das coisas que deixou para trás.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Flutuante
Vi hoje uma pluma que flutuava calmamente em sua leve trajetória e calmamente buscava o caminho do chão. Caminho esse por vezes um pouco estremecido por pequenas intempéries eólicas, manifestações irrevogáveis da natureza, mas ainda sim era um caminho manso, de uma leveza e serenidade um tanto quanto incomuns. Nesse pequena observação da pluma que procurava, sem nem um segundo se desesperar, seu descanso perpétuo junto ao solo, percebi que como pluma por agora vou. Sigo um caminho tranquilo, sem muitos desesperos, bem como sem grandes ambições. Um futuro sereno, de muita paz e sem buscar nem passar por grandes extravagâncias ou exageros. Um caminho de pluma, de fato. Prosseguindo nessa ideia me perguntei o que seria meu chão nessa história. Rapidamente concluí: meu chão é a paz. Meu chão é a alegria. Meu chão é a felicidade.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Compaixão
E do choro desesperado
das almas que sofriam
Nasceu uma flor.
Uma flor tão sublime e delicada
que outras pessoas esqueciam
De seus próprios sofrimentos.
E as pessoas que antes sofriam
também esqueciam porque sofriam,
felizes da utilidade de seu
Remoto sofrimento.
Chamemos essa flor "Compaixão".
das almas que sofriam
Nasceu uma flor.
Uma flor tão sublime e delicada
que outras pessoas esqueciam
De seus próprios sofrimentos.
E as pessoas que antes sofriam
também esqueciam porque sofriam,
felizes da utilidade de seu
Remoto sofrimento.
Chamemos essa flor "Compaixão".
sábado, 5 de abril de 2014
Bate-bola
Um olhar atravessado. Um semblante carrancudo. Sem motivo. Minto, tem motivo. Motivo sem mote, mas tem. Um gol a mais, um ponto a menos. Camisas distintas. Há algo errado. É tudo triste. Um campeonato. Uma vida?! É tudo errado. Há algo triste. Bola em campo, vida em jogo. Pudor. Cadê? Humanidade? Sei lá. Amores em cores, cores por rancores. Sangues azuis e brancos. Sangues alvinegros. E eu que julgava respirarmos todos pelo vermelho. E o verde? O verde sempre domina. O verde sempre comanda. O verde compra, o verde vende, o verde apita. O verde rege essa peça neo-clássica que nada ilumina. E no surrealismo dessa neo-realidade perecemos. Torcemos, matamos, morremos. E nela, mesmo antes de morrer, de morte já vivemos.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Sobre tonéis e corações
Assim como amadeirado torna-se o gosto da cachaça, com o tempo amadeiradamente amo agora. O tempo, bálsamo etéreo que ameniza todas as dores e sentimentos, ameniza também o amar. Não, assim como com o uísque, ameno jamais significará pior. Tampouco menor. A urgência desmedida, o gosto exalante do álcool e o gelo necessário para goladas afoitas, escondem notas do sabor, e tornam selvageria instintiva boa parte do gosto sublime do amor.
É fatal. Tal qual as uvas chorosas em lágrimas de sangue pelo pisar impiedoso e sem coração, o sofrimento, a ânsia, o aperto, as pernas bambas, o corar das faces, a falta de palavras e de lugar para as mãos também fazem parte de um processo de fabricação de uma seiva. E na adega escura da desilusão, da solidão, da falta completa de esperanças, essa seiva necessita descansar por um bom tempo. Esse tempo, sim, depende tanto da uva quanto da crueldade dos pés que a maceraram. Anos, década talvez, e poderemos então experimentar o sabor tocante e gracioso do tenro vinho do coração. Que amansa a alma, que acalma a língua e que traz à vida um novo sentido para ela mesma.
É fatal. Tal qual as uvas chorosas em lágrimas de sangue pelo pisar impiedoso e sem coração, o sofrimento, a ânsia, o aperto, as pernas bambas, o corar das faces, a falta de palavras e de lugar para as mãos também fazem parte de um processo de fabricação de uma seiva. E na adega escura da desilusão, da solidão, da falta completa de esperanças, essa seiva necessita descansar por um bom tempo. Esse tempo, sim, depende tanto da uva quanto da crueldade dos pés que a maceraram. Anos, década talvez, e poderemos então experimentar o sabor tocante e gracioso do tenro vinho do coração. Que amansa a alma, que acalma a língua e que traz à vida um novo sentido para ela mesma.
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